A necessidade é a mãe da ingratidão
Por Abdon C. Marinho
Explicava a um amigo a minha ligação com a frase “a necessidade é a mãe da ingratidão”, que já se aproxima de três décadas.
Tudo começou quando este indagou:
— Doutor, e fulano?
— Ah, fulano “ademerou”, respondi-lhe.
Com um olhar de quem não entendera bulhufas, questionou:
— Não entendi, como assim? Explique. Não conheço esse verbo.
Passei a contar-lhe a história.
Em 1994, o PSB, partido ao qual era filiado, tomou uma das decisões mais difíceis: deixar de apoiar Jackson Lago — que apoiara a eleição de Conceição Andrade à prefeitura da capital — para apoiar o senador Cafeteira, que enxergávamos como o mais viável para derrotar a candidatura governista de Roseana Sarney. Eu trabalhava como chefe de gabinete de Juarez Medeiros, que foi indicado a vice-governador na chapa de Cafeteira.
Após a sofrida derrota por uma margem mínima de votos, cerca de 18 mil, voltamos às nossas atividades para a conclusão do mandato na ALEMA. Depois disso, fui chamado para trabalhar na SEMED São Luís.
Pouco tempo depois, por volta de abril ou maio, o Congresso Estadual do PSB decidiu que Juarez deveria se preparar para suceder Conceição e que o melhor lugar seria em uma posição dentro da administração municipal.
Optou-se pela COLISEU. Juarez, juntamente com Benedito Terceiro e Carlos Guterres — dois expoentes do “Cafeteirismo” —, iria operar um choque de gestão na empresa de limpeza pública, que sofria severas críticas da população e, por consequência, viabilizar o nome de Juarez como candidato à sucessão de Conceição.
Bem, como sabemos, o plano não deu certo e, talvez em outra oportunidade, trataremos desse assunto.
Com a experiência de quatro anos como chefe de gabinete de Juarez na Assembleia, fui convidado para ocupar cargo similar na empresa: Chefe da Secretaria Executiva.
Foi nessa condição que conheci o seu Ademério. Ele era o motorista da presidência e acabava dirigindo para mim para todos os lugares.
Quando comprei meu primeiro carro, um Fiat Uno azul, ele o dirigia.
Eu conciliava o dia inteiro de trabalho com a reta final do curso de Direito na UFMA, e Ademério me deixava lá e ia para sua casa na mesma região. A minha volta para casa, no Cohatrac, era de carona e/ou ônibus.
Chegou 1996, em abril. Juarez foi exonerado da Coliseu para ser candidato e eu fui para o cargo de Diretor Administrativo e Financeiro da empresa, e Benedito Terceiro para a presidência. Ademério foi comigo para a diretoria e seguimos a mesma rotina.
Iniciou-se o processo eleitoral e Juarez não foi viabilizado como candidato a prefeito; numa composição de forças, acabou candidato a vice-prefeito na chapa com João Castelo. Passei quase quatro meses em jornada tripla: Coliseu, comitê de Castelo na Península da Ponta d’Areia e UFMA. Desse período temos histórias hilárias e de muito aprendizado.
No Fiat azul, Ademério me levava à Coliseu, depois ao comitê e, por fim, me deixava na UFMA, de onde voltaria de carona e/ou ônibus para casa. Ele ficava com o carro para me apanhar no dia seguinte.
Após o segundo turno, com a chapa Castelo/Juarez sendo derrotada por 56% contra 43% dos votos, voltamos à Coliseu para organizar a entrega dos cargos. Assim como em 1994, a eleição de 1996 foi cheia de aprendizado.
Na reta final do ano, acho que dias antes do Natal, ia com Ademério, Lune José e Sebastião Maramaldo almoçar, como fazíamos todos os dias, em casa no Cohatrac — a COLISEU funcionava na Avenida São Luís Rei de França, e para o Cohatrac era “um pulo”. Fazíamos isso quase todos os dias, prática suspensa durante a campanha por conta da correria e distância. Almoçávamos e retornávamos para a empresa.
Pouco antes de chegar em casa, com o relógio marcando mais de meio-dia, Ademério vira-se para mim, no banco do passageiro, e solta:
— Chefe, eu sempre lhe odiei!
Olho incrédulo para ele e digo:
— É mesmo, seu Ademério? Eu lhe fiz alguma coisa?
Responde:
— Não, mas eu sempre lhe odiei.
No banco traseiro do carro, Sebastião e Lune, atônitos, queriam sorrir, mas não conseguiam.
Já estávamos chegando. Ademério parou o carro, entregou as chaves e foi apanhar um ônibus para voltar para a empresa.
Durante o almoço, os dois companheiros não paravam de fazer gozações e repetir:
— Chefe, eu sempre lhe odiei!
Já naquele momento, dizia a eles:
— Não queiram mal ao seu Ademério, ele está apavorado com a possibilidade de vir a perder o emprego no início do próximo governo, por isso tenta se afastar de nós a todo custo.
Naquela tarde, Lune voltou na condução do carro, e assim foi nos dias seguintes até o final do nosso período na companhia. Nesse período, víamos o seu Ademério por lá, se esgueirando e desviando o olhar. Só as pessoas mais próximas ficaram sabendo do ocorrido.
Anos depois, quando soube, Terceiro me disse:
— Se tivesse tomado conhecimento do fato, o teria demitido na hora. Ele que fosse readmitido ou recontratado pelo novo governo.
Eu lhe disse:
— Justamente por isso não lhe contei.
Em 2000/2001, Ademério me pediu emprego no escritório que estávamos iniciando. Ficou comigo por mais um ano, sempre envergonhado se alguém tocava no assunto do “chefe, eu sempre lhe odiei”. Pediu para sair no final de 2001, pois estava muito cansativo para ele.
Desde aquele dia fatídico de dezembro de 1996 e nos anos seguintes, fiquei pensando no quanto ele supostamente “sofreu” até dizer aquelas palavras, com o medo de perder o emprego.
Ora, eu tinha certeza de que nada lhe fizera de mal, pelo contrário, sempre o tratei como irmão, comendo e bebendo do que comia e bebia, sentado-se à mesa conosco. Ele, por outro lado, sem qualquer motivo. Como se “afastar”? Essa mania de pensar... Fiquei imaginando o “planejamento”: “Hoje eu vou dizer que o odeio”; chega a noite sem conseguir, fica novamente pensando: “Amanhã eu faço”, até chegar ao desfecho.
Fico pensando também no que ele imaginava a respeito do pós-desfecho: “Vai me demitir, me colocar para fora da empresa”.
Como disse, mesmo no momento dos fatos, compreendi o “estado de necessidade” o empurrando para a ingratidão.
O episódio, para mim, foi o mais ilustrativo de que a necessidade é a mãe da ingratidão.
Abdon C. Marinho é advogado.