Seu Vandelo, meu pai.
Por Abdon C. Marinho.
CHAMAVA-SE Vanderlino Calheiro de Marinho, agricultor, analfabeto por parte de pai, mãe e parteira. Veio do Rio Grande do Norte com toda a família do meu avô, José Calheiro, e mais diversos parentes, amigos e agregados numa leva de migração para o Maranhão, em fuga da seca cruel.
Um dia, bem cedinho, como costumava fazer, já morando em Governador Archer, saiu de casa e, após andar algumas quadras, caiu para não mais se levantar. Foi um AVC? Um ataque cardíaco fulminante? Até onde sei, e também pela falta de estrutura médica, não tivemos uma resposta conclusiva ou satisfatória. Era 28 de novembro de 1994.
Estávamos a poucos dias do retorno ao trabalho na Assembleia Legislativa, após a surpreendente derrota nas eleições para o governo estadual, nas quais trabalhei em razão de Juarez Medeiros ter sido o candidato a vice-governador na chapa com Cafeteira.
Aquela reta final de 1994, além da derrota sofrida, contabilizava já umas três ou quatro perdas familiares – os irmãos de meu pai foram morrendo em sequência na quadra final daquele ano e no início de 1995, a ponto de fazermos um trocadilho e paralelo com um filme da mesma época: dizíamos, “três (ou quatro) funerais e uma derrota”.
Adilson, meu irmão mais velho entre os homens, ligou no gabinete para me dar a notícia: — Papai morreu, vamos para Governador Archer.
Recebi a notícia meio que anestesiado por todos os fatos antecedentes de perdas e da derrota eleitoral.
Perguntou se eu queria ir até a casa onde morava para pegar alguma muda de roupa, mas disse-lhe que iria como estava, com a roupa do corpo.
Ele, Dadido, não perguntou se eu queria ir ou não, apenas me “intimou” a ir para o interior, para acompanhar o velório ou enterro de nosso pai. Se tivesse perguntado ou dado a opção de não ir, certamente não teria ido.
Cada filho tem um pai. É dizer: o pai que é para um filho não o é para o outro ou para os outros; mudam as circunstâncias, as condições e até os sentimentos. Dadido, o mais velho dos homens, assim como outros mais velhos, teve um pai diferente do que eu tive, embora fosse o mesmo pai. Apesar de toda a pobreza e do trabalho árduo na roça, possuía uma relação bem diferente da minha, pois entre elas aconteceu a morte da minha mãe, quando ele já era casado.
Com a morte de mamãe, houve a “diáspora” dos filhos, cada um para um canto, vivendo suas próprias vidas, dores e traumas. Só conseguimos reunir todos os irmãos no mesmo ambiente em 2013, no aniversário de 60 anos de Dadido – a única vez que isso aconteceu desde a morte da nossa mãe.
Em 1994, vinte e um anos após a partida de mamãe, era meu pai que nos deixava. Dele, carregava todas as mágoas possíveis: pelo abandono, pelas humilhações, privações sofridas e tudo mais que só os órfãos sentem. Já adulto, até aquele momento, não conseguia me desvencilhar daquelas dores. Eram dores que por anos tentamos ocultar. Mas elas estavam lá.
Dadido me apanhou no estacionamento da Assembleia, na Rua do Egito. O carro que possuía à época era uma caminhonete Pampa de dois lugares. Na cabine iam ele e a esposa, e eu, junto com mais alguém, íamos na carroceria – naquele tempo não havia as restrições de hoje.
Na estrada, enquanto vencíamos os cerca de 350 quilômetros até Governador Archer, padecia ora com o sol, ora com uma fina chuva, e pensava em tudo que já passara até ali. Vez ou outra, as lágrimas vinham lavar-me o rosto, talvez menos pela perda em si e muito mais pelo sofrimento já vivido.
Lá chegamos, passamos o restante do dia e da noite no velório e o enterro ocorreu no dia seguinte, no cemitério do Centro Novo, a nossa aldeia. Como dito anteriormente, estava anestesiado. Meu pai morrera, mas era como se estivesse distante de todo aquele clamor em torno do fato. Meus primos e primas choravam copiosamente a perda do tio e suas próprias perdas, enquanto eu guardava internamente minhas dores.
Muitos anos depois, com um pouco mais de maturidade, aceitei que meu pai não tinha como fazer mais do que fizera por mim e por meus irmãos.
Era um homem rude, analfabeto, que experimentou todas as dificuldades e privações da vida, trabalhando de sol a sol na roça, tentando escapar dos martírios das secas que, vez ou outra, o castigavam ainda mais e que, por conta delas, acabou vindo para o Maranhão para padecer de iguais batalhas.
Esse homem, cercado por tanta ignorância e pobreza, tinha a lucidez de que só teríamos uma vida melhor se estudássemos e, por conta disso, ao invés de explorar essa força de trabalho – mais dos meus irmãos do que a minha, por razões óbvias –, continuava sua labuta na roça para que pudéssemos nos manter na cidade estudando.
E, com essa mesma rudeza e simplicidade, nos ensinou a valorizar o trabalho, a honestidade e a não querer nada que não fosse nosso.
Foi pai de 14 filhos (dez só com a minha mãe) e a todos legou os mesmos ensinamentos.
Não, ele não poderia fazer nada além do que fez. Ele foi apenas humano nas suas fraquezas e impossibilidades.
O que esperar de alguém que, de repente, vê-se viúvo e com uma dezena de filhos para sustentar? Sem estudos e, na viuvez, sem o esteio que lhe fornecia o equilíbrio?
Seu Vandelo, meu pai, com todas as limitações que a vida lhe impôs, foi um grande homem, que educou seus filhos e filhas nos melhores dos princípios, dos quais até hoje ninguém se afastou.
Ainda hoje lembro de suas palavras: — Meu filho, nada posso lhe dar além dos estudos; com eles, você será o que quiser.
A única vez que me bateu – uma dúzia de “bolos” com uma velha palmatória – foi quando soube que eu estava fugindo da escola para fazer travessuras na rua ou voltar para casa mais cedo.
Santo remédio. Nunca mais deixei de estudar e trabalhar. São essas as mais concretas lições do meu pai: estudar para ser alguém e nunca ter preguiça de trabalhar honestamente.
Se ainda estivesse vivo, meu velho pai estaria completando, nesta data, 97 anos.
Obrigado, meu velho, por tudo.
Abdon C. Marinho é advogado.