
A República com Código de Barras e QR Code
Por Abdon C. Marinho
Estou certo de que os anos que terei pela frente serão bem menos que os vividos até aqui.
Diante de tal constatação, sobressai uma outra certeza: não alcançarei o sucesso do nosso país. Somos as gerações do fracasso.
Quando crianças, ouvíamos nas salas de aula, nas esquinas das cidades, nos clubes e nas igrejas que o Brasil seria o país do futuro. O futuro chegou e o que temos a contabilizar são os fracassos das gerações que nos antecederam, das atuais e das futuras, pois, no rumo em que estamos, até as pessoas que nascerem a partir de agora terão o fracasso como legado.
Não se trata de derrotismo ou falta de otimismo, mas da mais pura constatação de que perdemos o rumo e não temos mais (se é que tivemos um dia) um projeto de nação.
Nos meus vagares dominicais, enquanto reflito sobre o país e tento colocar no papel o que penso, uma dúvida sempre me assalta: que país teremos na próxima semana? Ou teremos algum país na próxima semana?
Acompanho a política nacional há muito tempo, mais de quarenta anos. Foi por essa época que a banda RPM lançou a música “Alvorada Voraz”, que continha na letra:
“O caso Morel, o crime da mala / Coroa-Brastel, o escândalo das joias / E o contrabando / Um bando de gente importante envolvida …”.
Vejam que os escândalos da época, se comparados aos de hoje, seriam julgados pelos juizados de pequenas causas.
Já pelos anos noventa, a mesma banda modificou o refrão, substituindo os escândalos da letra original por:
“O caso Sudam, Maluf, Lalau, Barbalho, Sarney / E quem paga é o jornal / É a propaganda / Pois, nesse país, é o dinheiro que manda …”.
Na mesma época, fizeram história o escândalo dos “Anões do Orçamento” e outros mais.
Já pelos anos dois mil, os escândalos mudaram de patamar: foi a época do “mensalão”, esquema de compra de apoio de parlamentares.
Com o julgamento desse escândalo e a condenação de muitos de seus participantes, pensava-se que a bandalha daria uma trégua. Mas aí surge o “petrolão”, o fatiamento das diretorias entre partidos e políticos com o propósito de saquear a maior petroleira do país.
Outro escândalo que, uma vez revelado e com alguns de seus beneficiários presos, parecia que serviria para inibir os salteadores da nação.
Na atual quadra da história, somos informados de que, não satisfeitos em apenas “assaltar” os cofres públicos, passaram a assaltar incautos aposentados, pessoas com deficiência e outros desfavorecidos.
O escândalo do INSS começou a ganhar volume a partir de 2008, 2009, 2010, até atingir a proporção bilionária que se encontra exposta atualmente. Qualquer investigação séria encontrará ramificações nos poderes públicos: Executivo, Legislativo e Judiciário.
Na mesma época, a infinidade de bancos de fundo de quintal também começou a engendrar seus planos para participar desse butim — ou melhor, das poupanças privadas, salários e benefícios de aposentados e pensionistas.
A revelação do chamado “Escândalo do Master”, que faz tremer a República, é tão somente a outra face do “Escândalo do INSS”. Ambos estão umbilicalmente ligados, são as duas faces da mesma moeda e nada mais do que os “furtos” de recursos públicos e privados pelos mesmos grupos econômicos.
O que se revela grave no escândalo do Master é que importantes autoridades públicas estavam na “folha de pagamento” de um banco enrolado, dirigido por alguém que, sabe-se agora, não passa de um estelionatário, um tremendo 171.
Será que tais autoridades não acharam demasiado que tal banco pagasse a seus familiares contratos astronômicos por serviços inexistentes? Será que não achavam que “pegava mal” conviver com um cidadão de vida tão “extravagante”, a ponto de gastar, em uma festa de 15 anos, 15 milhões; em uma degustação de uísque, outros 5 milhões; e, em uma festa de noivado, 200 milhões?
Será que essas autoridades não perceberam que seus ofícios não comportavam esse tipo de convivência, totalmente incompatível com a realidade dos trabalhadores do país, que mesmo trabalhando por todas as encarnações jamais ganhariam o que um único cidadão esbanjava em uma única noite?
Será que pensaram que tais verdades inconvenientes nunca viriam à tona?
O estelionatário falastrão não tinha nenhuma preocupação em esconder suas tratativas com esses poderosos. Pelo contrário, essas “relações” eram mais uma ornamentação na prateleira da ostentação.
Antes de ingressar na faculdade de Direito, cheguei a fazer cursinho. O Cursinho do Professor José Maria, na Rua dos Afogados, era um dos mais conceituados e concorridos naqueles tempos em que só tínhamos duas universidades no estado: UFMA e UEMA. Com o titular do cursinho, aprendi uma lição que lembro até hoje. Dizia o mestre:
“Todo homem tem um preço; o problema é que sempre vale menos que o valor que lhe pagaram”.
O estelionatário, ao que parece, achou o preço dos dignatários da República e, com o dinheiro assaltado dos incautos, pagou-lhes os “pixes” cobrados.
Esses, efetivamente, se encantaram com o “bezerro de ouro” de que tratou o ministro do STF, Flávio Dino, em recente pregação pública.
Como posso acreditar que o país possa ter futuro ou encontrar um rumo quando vemos suas mais importantes autoridades sendo “enganadas” — ou se deixando “enganar” — por um estelionatário de quinta categoria?
Se deixaram enganar ou se encantaram com o “bezerro de ouro”?
Não, não temos como alcançar o futuro que tanto nos prometeram. O Brasil, tanto fez, que corre o risco de voltar a ser colônia de alguma potência estrangeira.
O Brasil é o retrato perfeito do fracasso de todos nós.
Abdon C. Marinho é Advogado.