
Roteiro de filme tipo B (de Brasil)
Por Abdon C. Marinho.
Estamos em meados de 2019, numa opulenta mansão à beira do lago, dois senadores conversam em um pier durante um convescote de final de tarde.
— E aí, “mermão”, como é mesmo essa “parada” de roubar os velhinhos do INSS? Quero fazer parte.
— Ah, a parada é a seguinte: com os cadastros dos beneficiários, fazemos parcerias com as entidades de representação dos mesmos, fictícias ou não, para que os convençam a autorizar pequenos descontos em troca de benefícios ou seguros que nunca irão precisar. Além das entidades, começamos através de alguns bancos amigos a fazer “empréstimos”, também, reais e/ou fictícios. Se algum reclama ou leva para a Justiça, “damos um jeito” do processo durar mais tempo do que a sobrevida do reclamante.
— “Mermão”, essa “parada” é da hora.
— Sim. Já estamos fazendo isso há mais de uma década e nunca tivemos problemas. É só dividir direitinho e ter os canais certos.
— Agora somos nós que estamos no poder, como é que fica a nossa parte?
— Queria mesmo tratar disso contigo. A “parada” de roubar os velhinhos do INSS já está saturada, com muita gente envolvida, muita gente tirando o seu pedaço, mas queremos continuar contando com a colaboração de vocês para não “melar” o esquema.
— Beleza, como vamos fazer para nos contemplar nessa parada? Não podemos ficar de fora.
— Tem um sujeito aí, parceiro de uns amigos meus, com um “plano de negócios” muito interessante e que já vem operando na Bahia. A ideia é ajudá-lo a nacionalizar sua operação e assim todos nós ganharmos muito, coisa de bilhões. Podemos até envolver parte da parada do INSS.
— Estou de acordo. Como podemos fazer?
— Pois bem, esse cidadão mineiro acabou de ter negado, pelo Banco Central, um pedido para transformar sua instituição financeira em banco. Se conseguirmos resolver isso, a operação vai deslanchar e será “master” para todos nós.
— Deixa que dentro do governo eu “opero”. Na hora que trocarmos o comando do Banco Central, uma das primeiras medidas será autorização para a instituição do “nosso irmão” virar banco.
— Então estamos combinados. Na hora que o “nosso irmão” de Minas Gerais estiver por aqui, daremos um jeito de marcarmos um encontro discreto para alinharmos como será e qual o “pedaço” de cada um e como serão os pagamentos.
— Está certo, quanto a isso já tenho uma ideia: posso reativar minha sociedade advocatícia em parceria com a minha esposa, que poderá se associar com outras parcerias, e assim a “muamba” entrar sem despertar suspeitas ou, pelo menos, com uma explicação.
— Sim, é uma boa ideia. Eu mesmo, embora não sendo advogado, tenho uns parceiros que “operam” para mim dessa maneira. Quem poderá dizer alguma coisa se todos ou quase todos os ministros do STF, STJ, TCU, membros do Ministério Público possuem escritórios de advocacia ou parceria com as melhores bancas?
— Essa semana mesmo, pedirei ao contador para organizar a empresa jurídica formalmente.
— Perfeito. A história de vender chocolates era muito amadora para o volume de negócios que podemos fazer aqui por Brasília. A firma de advogados com a esposa é muito melhor. Qualquer bronca que aparecer, diz que foram honorários por serviços prestados, por consultoria, etc. Os próprios ministros já fazem isso.
— Pois é, eu que pensei que aqui fosse um pouquinho diferente do que acontece no meu estado.
— Aqui é tudo igual, só é mais caro, muito mais caro.
— Estou vendo isso.
— E aí, soube que está tentando comprar uma casa?
— Sim …
— Então, essa mansão já pode entrar em uma das tratativas com o “nosso irmão” de Minas.
— É mesmo?
— Claro, usa-se um banco amigo para simular um financiamento a perder de vista e o “nosso irmão” acabará dando um jeito de pagar. É assim que funciona. Aqui ninguém trabalha com o próprio dinheiro; é tudo dinheiro do contribuinte, do orçamento, das emendas ou desviado dos menos favorecidos.
— Pois amanhã mesmo vou procurar o governador para que abra os canais do banco estadual.
— Faz isso, é mamão com açúcar.
— Só tem uma coisa, para todos os efeitos, o pai ainda não pode saber do negócio com o “nosso irmão” mineiro nem sobre o “empréstimo” da mansão.
— Fica tranquilo, aqui todos sabem de tudo, mas todos fingem não saber. Como os outros colegas, ministros compram mansões, carrões, vivem no luxo e em viagens? Do salário? Certamente que não. Fica gelo.
Caía noite à beira do lago, entre um gole ou outro do melhor uísque que o dinheiro público pode comprar, as excelências iam conjecturando sobre as mais variadas formas de afanar as economias dos contribuintes incautos, enquanto estes, crédulos, acreditavam em mudanças de sistema.
No dia seguinte, no azul celeste dos tapetes do Senado da República, as mesmas excelências fariam eloquentes discursos sobre a probidade administrativa e pediam penas duras para os ladrões de galinhas ou para aqueles que roubaram um quilo de arroz ou feijão para alimentar a família.
Repetindo a verdade indigesta já dita por Vieira há quase quatrocentos anos, também, no Brasil, o roubar pouco fazem os piratas ou roubar muito fazem as excelências.
Esse é o primeiro ato do nosso Roteiro de filme tipo B (de Brasil). Qualquer semelhança com os fatos da vida real é não mera coincidência.
Abdon C. Marinho é advogado, escritor, cronista.